sexta-feira, 8 de outubro de 2004

Guiné - Parte II

O avião aterrou e saímos, eu cheia de expectativas em relação a um mundo desconhecido, mas que não imaginara que fosse tão diferente do que eu conhecia. Afinal, desde que me lembro de existir que viajo, pelo que fui aprendendo a valorizar as particularidades culturais e a respeitá-las. Mas em Bissau esperava-me um mundo que eu supunha existir só nos livros de antropologia.
Como não conhecia ninguém e a minha disponibilidade financeira era muito reduzida por não ter bolsa nem qualquer tipo de apoios, fui viver para uma missão religiosa. No caminho que separa o aeroporto do centro da cidade, ia conversando com as irmãs que me foram buscar, impecavelmente vestidas de branco. Simpáticas e disponíveis como só as missionárias são, no meio religioso, iam-me explicando tudo e mais alguma coisa, apelando os meus sentidos para a quantidade de gente a pé com que nos cruzávamos, apesar de ser de madrugada. Pessoas com cestos na cabeça, outros simplesmente sentados à beira de uma estrada empoirada, sabe-se lá à espera de quê.
Os guineenses iam invariavelmente vestidos de cores garridas e tecidos mesclados, muitos dando a sensação de terem um único pano à volta do corpo, atado com um nó. Outros levavam uns chapéuzinhos na cabeça, de cores diferentes que, mais tarde, vim a perceber que se tratava de símbolos étnicos.
E por fim chegámos a um centro minúculo, para capital, e eu só tinha mesmo era vontade de me deitar e descansar. Nos dias seguintes esperar-me-ia uma série de surpresas que eu tinha vontade de conhecer.
Acordei algumas 10 vezes nessa noite, e nas seguintes também. O meu quarto dava para o jardim da casa, onde havia um galinheiro, e o galo era pior do que um relógio de cuco. Dava horas! Já acordada há algum tempo, decidi tomar mais um duche e comer qualquer coisa para de seguida dar umas voltas pela cidade. Tinha tudo preparadíssimo numa mesa à minha espera. Elas foram à missa, bem cedo, mas o meu pequeno almoço ali estava.à minha espera. E, ala que se faz tarde, aí vou eu à descoberta de Bissau, capital de um pequeno Estado, ex-colónia portuguesa e que tanta curiosidade me criava.
No início, Bissau foi uma desilusão - suja, cheia de buracos que mais pareciam crateras, visto que quando espreitavamos para o seu interior, não víamos o fundo, crianças que se multiplicavam e brancos que quase não se viam. Cheguei ao porto, depois de ter passado pela catedral, pelo Banco que mais parecia estar fechado, e vejo essencialmente areia e lodo, porque a água era em pouca quantidade. Nem cheguei a perceber ao certo onde os barcos atracavam.
Dei a volta e fui ter às traseiras do hospital Simão Mendes, e a minha perplexidade foi total. Além das estátuas antigas, que representam a História do país, no bom e no mau do passado, terem sido deitadas por terra, ao que consta por altura da independência, estavam mal tratadas e rodeada por umas aves, grandes qb, que vim a saber tratar-se de abutres - os famosos jagudi. Na época da independência foi prática arrancar os símbolos coloniais, mas, com o tempo, noutros países acabaram por ser recuperados, limpos e arranjados. Ali parecia que o tempo tinha parado.

A escrita e os artefactos

Para quem gosta de escrever uma caneta é a extensão de si próprio e um caderno o seu reflexo. São objectos especiais e, por isso, tratados ...