quinta-feira, 28 de outubro de 2004

Annobón - a decisão

A visita a Annobón foi preparada com cuidado e idealizada ao pormenor, pelo que a expectativa era grande. Faz agora mais ou menos dois anos. Estava em São Tomé a preparar a minha pesquisa de doutoramento e as actividades de fim de semana alegravam os nossos dias porque fazíamos sempre algo diferente, para que o tédio não nos vencesse. Há que referir que em São Tomé não há dinamismo cultural - o cinema é uma miragem, o teatro um sonho, livrarias... o que é isso?, discotecas só duas, cibercafés uma inovação, galerias de arte, apenas uma, a luz nas ruas da capital tem 4 anos e a televisão resume-se ao brilhantismo da programação da RTPInternacional... e não é preciso dizer mais nada...
As actividades de fim de semana eram mesmo integradas em meio natural - praia, o mais possível, caminhadas pela floresta e visita a roças, mas que de tão degradadas que estão, quase nem serve de passeio cultural.
O grande dinamizador do nosso lazer tinha vindo de férias para Portugal e o marasmo aparecia na cara de todos, sobretudo dos que adoptavam de forma sistemática o lamento como forma de vida, o comentário e a crítica da vida alheia como estratégia. E eis senão quando, os mais velhos se organizaram e propuseram a alguns de nós uma sexta feira diferente. A ideia era fretar a avioneta da Air São Tomé e fazermos uma incursão à Guiné Equatorial, a uma ilha famosa pela beleza das águas e pela pobreza do povo, Annobón, que terá sido uma ilha portuguesa que fora negociada com os espanhóis em plena época expansionista.
Um deles, que ficou como o organizador do dia, juntou passaportes e responsabilizou-se pelos vistos, reuniu os cheques para pagar o avião e combinou com o Lima, famoso pelos bigodes que tem e pelo restaurante com o nome que lhe faz jus, o almoço, fenomenal para um catering de avião... até lagosta e presunto pata negra havia. Fomos bem tratados pela organização, é um facto.
E lá fomos, numa 6ª feira. O ponto de encontro foi a porta das partidas nacionais do aeroporto de S. Tomé, onde embarcámos em conjunto com a missão da Força Aérea que ia voar para o Príncipe nessa manhã.
O voo foi suave, houve mesmo quem dormisse. Eu, claro está, ia atarefadíssima a tirar fotografias à paisagem porque, de facto, a costa santomense é muito bonita, muito mesmo. Vi as roças do sul, a foz dos rios, o ilhéu das rolas e o cão grande. Foi fantástico e aquele voo ficará para sempre na minha memória. A chegada a Annobón parecia um sonho porque, se nos costumávamos queixar da pista de STP, pois a de Annobón era surreal porque tinha ligação com o centro da aldeia e com as praias, e para agravar a alucinação expectante, tinha escavadoras e outros meios de construção civil no meio.
(continua)

A escrita e os artefactos

Para quem gosta de escrever uma caneta é a extensão de si próprio e um caderno o seu reflexo. São objectos especiais e, por isso, tratados ...