sábado, 30 de outubro de 2004

Annobón, a alucinação do grupo

Annobón foi um passeio magnífico mas, a dada altura, alguns dos participantes decidiram, vá-se lá perceber porquê, tentar convencer-me a alterar o campo de estudo da minha tese de doutoramento. Turismo ecológico em São Tomé e Príncipe? Que ideia, o potencial turístico estava ali mesmo.
Eu sei, era a mais nova do grupo, cuja média etária rondava os 50 anos (excluindo-me, claro), era dos poucos que tinha decidido ir sózinha (sem par), ou que não o tinha de forma oficial (o que não quer dizer que não tivesse e que os outros não soubessem). Além disso, era tida como tendo mau feitio (leia-se, refilona), mas na verdade ria-me sempre mais do que respondia, sobretudo quando tinha vontade de o fazer, e por isso todos tendiam a abusar com as brincadeiras, para ver até onde podiam mesmo esticar a corda. Ou seja, os mais velhos do grupo - um médico e um alto responsável pela cooperação no arquipélago - decidiram que eu deveria manter-me por Annobón, mesmo contra a minha vontade.
O estratagema estava montado - eu tinha decidido ir até APOT, fazer uma caminhada, mas o ritmo do militar sorridente não me permitiu chegar ao destino, pelo que, depois de muitas vezes me sentar no chão para comer uma manga, apelando aos deuses das florestas para que as cobras não tivessem curiosidade acerca da minha pessoa, decidi retornar. E foi a única altura em que andei sem vigilante - a descida de APOT até ao centro da terra, para me reencontrar com os outros. Mas quando cá cheguei abaixo, já tinha uma moça à minha espera. Pois como é que ela comunicou com o outro, numa ilha que nem telefone tem, isso não sei.
A moça encarregou-se de me levar até à pista, onde os outros tinha abancado a comer lagosta, presunto pata negra, queijo da serra e outras delícias importadas, que o Lima tinha preparado para o nosso repasto, com toda a atenção. É verdade, eles estavam todos dentro do avião porque em Annobón só havia um café que não tinha água, cerveja ou qualquer refrigerante. Nem percebi porque é que estava aberto e com gente sentada nas mesas. Por isso, não valia a pena ficarem no café à espera dos mais destemidos e resistentes que chegaram a APOT, quando dentro do avião tinham tudo para passar um bom bocado.
Cheguei ao avião e a festa foi total - eles tinha estado a combinar a melhor forma de me deixarem lá, até porque havia a praia dos amores e assim eles teriam de regressar a Annobón de 15 em 15 dias pata me levarem alimentos, jornais e qualquer coisa que eu pedisse. O argumento era simples - eu queria estudar a implementação do turismo ecológico, num país onde o segmento se estivesse a implementar, não tinha nada que me prendesse fora de Annobón (pensavam eles... ou se calhar esperavam apenas a confirmação, mas eu não a dei), as potencialidades ali eram infinitas e a população muito afável.
Foi um estrafego o meu final de dia, o retorno a São Tomé e os dias que se seguiram. Não havia condições, nem ouvidos que aguentassem. E os músculos da minha face já se queixava, de tanto sorrir para não lhes responder. A um deles, o médico, não podia responder torto, afinal ele era uma das minhas referências, eu simpatizava muito com ele e era uma pessoa super disponível, apesar de ter entrado naquela brincadeirinha chata e que me parecia não ter fim. O outro era um fulano enigmático, que nunca cheguei a compreender, nem a função dele por lá, nem o grau de influência que tem sobre as diferentes comunidades. Além do mais, eles testavam a minha capacidade de reacção e eu não lhes dei o prazer de me ver desatinada, desorientada, enfurecida com a vida e o mundo.
Mas às vezes as brincadeiras não têm fim e as pessoas não sabem parar nos limites porque não os reconhecem, isso é verdade... E Annobón foi uma excelente experiência de conhecimento, de percepção de uma realidade tão diferente, onde o presidente regional se vem despedir dos passageiros e vê-los embarcar, porque é uma honra ter 12 turistas na ilha, e uma garantia de não intrusão. O estrangeiro é bem vindo, desde que parta e que não permaneça, mesmo que tenha dinheiro para gastar. Afinal por ali não há simplesmente nada para comprar porque ninguém vende nada. É a economia mais primária que conheci - produz-se e consome-se, não há trocas.
Foi engraçado mas muito estranho... e vim com a certeza que um dia, aquilo que poderia ser um paraíso vai ter de mudar...

A escrita e os artefactos

Para quem gosta de escrever uma caneta é a extensão de si próprio e um caderno o seu reflexo. São objectos especiais e, por isso, tratados ...