quinta-feira, 2 de setembro de 2004

A Primeira Pedra

De forma inexplicável aquele local permanece num calmo ponto de encontro, onde se acertam negócios, se discutem estratégias partidárias e se arranjam encontros amorosos, onde se vai para se ser visto, onde se “pica o ponto”, onde se passa uma boa tarde a ler, a ouvir o som do mar, a conversar ou a cuscar. Para tudo serve.
Todos se cumprimentam porque todos se conhecem, num sinal de cordialidade aparente mas, na verdade, profundamente falso. Parece ser um ritual, um hábito enraizado mas não sentido. São afáveis, sorridentes e aparentemente agradáveis, até para os que não conhecem e nunca viram. Mas após o primeiro contacto percebemos que a realidade é outra. Procuram tirar-nos a ficha, o mais completa possivel – origem, ligações familiares, estatuto socioeconómico, filiação partidária, actividade profissional, percurso académico, local, duração e objectivos da estadia, gostos e hobbies, conhecidos, amigos e principais inimigos... Como se tivessem alguma coisa que ver com isso. Mas a vida interior da maioria deles é tão pobre... para não dizer completamente vazia e desprovida de conteúdo. Não tem interesse e fazem da vida dos outros a causa das suas próprias existências.
Assustador, não?
Com base no que ficam a saber e nas fragilidades encontradas, tecem uma rede de estórias, com ditos e contos, relatos impossíveis de alguma vez terem acontecido. Contam e recontam, perguntam o que não sabem e passam a nossa primeira semana de estadia em investigações por conta própria, procurando saber um pouco mais, nem que seja um adjectivo que nos qualifique – preferencialmente pela negativa – para que o conteúdo das conversas, por mais simples que seja, sobre cada um de nós, ganhe forma e se torne em qualquer coisa de interessante, pela sordidez. Quem não tem muito para contar, ou sobre o que se falar, passa a ter.
Não é preciso muito, não é preciso quase nada. É preciso apenas chegar e ter qualquer coisa que se evidencie e marque pela diferença – a simplicidade, a beleza, a inteligência, a sedução, a simpatia, o à vontade, a postura aberta, a franqueza, a disponibilidade ou apenas por procurarmos ser nós próprios, sem camuflagens e refúgios. E, por não ser comum, torna-se interessante como tema de conversa e, nos subconscientes destas pobres almas, a diferença representa um risco.
Passamos a ser o alvo principal, o mais frágil, o mais fácil e o mais apetecível, pela simples razão que queremos conhecer, sem pensar na preversidade da mente humana fechada em ambientes pequenos, desenvolvendo-se em pensamentos circulares. Estrategicamente, há que aniquilar os novos para que se evidenciem apenas pelos traços negativos e condenáveis.
E estão todos de olhos postos em nós. Para quê? Para nos ver cair a primeira vez, pisar o risco, fazer a primeira asneira, mesmo que inócua. A partir daí, a fama está adquirida e é tudo muito mais fácil. Nem nos precisamos de esforçar para asneirar mais e mais. Não vale a pena, está tudo feito à partida. Por mais que façamos bem aos outros, haveremos sempre de ouvir a primeira história como se fosse regra. Ficamos marcados por um evento e se, por algum motivo, que só a nós diz respeito, reincidirmos... a “salvação” é impossível. Somos condenados torturados e queimados vivos, trucidados, destruídos, esquartejados. Não há nada a fazer, é assim e pronto.
A vontade que me deu foi transformar a asneira em banalidade e não liguei puto. Ou melhor, liguei, mas continuei na minha vidinha, nos meus disparates que só a mim diziam respeito, nas minhas loucuras pessoais, que não prejudicaram ninguém, e que me souberam como a Vida.
Foi uma experiência irrepetível, única, magnífica. Cresci como pessoa e percebi que não quero nunca ser como eles. Básicos, mentirosos, lineares, pobres de espírito, sem interesse, sem vida própria. Não vivem, limitam-se a vegetar por ali porque foi ali que foram parar e acomodaram-se por não conseguirem ser melhores. Mas se os pusessemos noutro lado, a postura seria a mesma porque ali só vão mesmo parar os que não prestam, aqueles que não conseguiram ir para outro lado, os falhados profissional, económica, social e afectivamente falando.
Esta é uma África que não é bem África, é uma mistura politicamente correcta e socialmente aceitável, onde todos representam um papel pré-definido. Mas, quem não cometeu erros? Quem é inimputável? Quem não se arrapende de nada? Esse seria o único com direito efectivo de atirar a primeira pedra. E por lá... não conheci nenhum com estas características. Mas todos falavam... do que era, do que não era, do que nunca tinha sido e até... do que viria a ser. Todos tiveram capacidades adivinhatórias brilhantes. Só por isso, valeu a pena. Leram-me o futuro e, como em tudo nesta vida, acertaram numas coisas e falharam outras.
Mas a terra não tem culpa, essa é magnificamente deslumbrante, misteriosa, sedutora, aliciante e acolhedora. A terra não teve culpa de seduzir os piores e de os reunir, criando o micro-cosmos da maledicência.

A escrita e os artefactos

Para quem gosta de escrever uma caneta é a extensão de si próprio e um caderno o seu reflexo. São objectos especiais e, por isso, tratados ...