segunda-feira, 6 de setembro de 2004

O Tubarão de STP – I Parte

Depois de ter regressado a Lisboa, após a minha última incursão a São Tomé, não há dia em que não me lembre das maravilhas do arquipélago, das suas particularidades, as mais apelativas e as outras... que representam riscos, mas que, por essa mesma razão, têm também o seu “quê” de sedução.
O tubarão de São Tomé é uma dessas particularidades, à volta do qual se tecem considerações, se contam histórias e se criam mitos, a maioria sem certezas. Sempre ouvi falar muito acerca do tubarão e nem sei porquê, talvez por ser um animal pouco simpático, que não permite grandes contactos com o Homem e que, apesar de tudo, existe em grande quantidade por aquelas águas. A maioria revelava desconhecimento sobre tipos e quantidade, principais riscos e ameaças, número de ataques e praias onde aparecem mais frequentemente. Mas as conversas evidenciavam sobretudo medo e desconforto. Havia quem: tivesse terror de o encontrar; dissesse já o ter avistado numa passagem de ano no pontão do Marlin, que era inofensivo, pequeno e da areia; não acreditasse que podia aparecer nas praias; relatasse (es)histórias, com um pormenor realista, mas sem grandes certezas... Na verdade, contava-se o que já se tinha ouvido, e “como quem conta um conto acrescenta um ponto”, fiquei sempre na dúvida.
De todas as conversas que fui tendo com as mais variadas pessoas - umas com conhecimento mais directo e outras apenas especulativas - percebi que ninguém duvidava que esta espécie habitava nas águas santomenses, e todos preferiam não ter, com o animal, um encontro imediato. A fama da espécie não é naturalmente positiva.
Os relatos que ouvi foram coincidentes – há tubarão em STP, mas os ataques a pessoas, sobretudo nas praias e a turistas, não são comuns – não gosta do Homem. As situações de ataque foram relacionados com a pesca artesanal, tendo ocorrido com pescadores locais, quando apanhavam “peixinho” ou quando puxavam as redes cheias de peixe, principalmente na foz dos rios, na zona de confluência com o mar. Em STP, não é comum o tubarão atacar o Homem, por atacar.
A minha curiosidade foi mais além, e ao encontro das minhas preocupações. Uma vez em STP, os meus tempos livres foram repartidos entre a praia e a floresta, e o meu sentimento em relação a estes bichos ultrapassa, desde que me lembro de existir, o receio e o medo. Confesso que resulta mesmo num pânico irracional. Dada a minha natural curiosidade, a busca de informação relacionada com as situações possíveis não cessou após o meu regresso.
Tenho ainda de confessar que a minha preocupação aumentou num dos inúmeros dias em que fui à Praia das 7 Ondas, com um amigo e a minha irmã, que estava a conhecer o país numa visita de uma semana.
Enquanto conversávamos animadamente ia mergulhando naquela magnífica praia, desfrutando do enquadramento paisagístico, digno do paraíso, e das águas mornas do equador, desfrutrando a deliciosa sensação de estar num jacuzzi natural, cheio de bolhinhas e a receber uma massagem permanente. De repente, sem dar conta e sem que os outros percebessem como, fui puxada para o largo, tendo dificuldades em regressar a terra, após sucessivas tentativas. Foi inexplicável, não só por ser uma das minhas praias preferidas, onde antes fiz “carreirinhas”, muitas e muitas vezes, mas principalmente por ter a água pelo joelho.
A minha angústia aumentou rapidamente, apesar de saber nadar desde os 5 anos, quando percebi que a minha resistência não era infinita, que a força e as correntes eram bem mais fortes do que eu, mas principalmente por olhar para a água e a ver escura e indecifrável. Não conseguia ver nada. A agravar, naquelas fracções de segundo, só me lembrava que aquela praia tem fama de ser "mal" habitada... ao largo.
Nesse dia pensei que o meu fim poderia estar próximo, logo na presença da minha irmã e do meu amigo, que não conseguiriam fazer nada... E, quando desisti de oferecer resistência ao mar, simplesmente porque já não tinha mais forças, o Deus do Mar e Todos Os Outros perceberam que eu não estava ali para guerrear e permitiram-me regressar à praia, com a ajuda final de duas crianças que entretanto se tinham aventurado água dentro, nadando com uma descontração só possível em STP. Quando cheguei à areia, completamente exausta “ouvi das boas”... à conta da corrente, das ondas e... dos tubarões... não bastasse já o susto e o desespero!!! Mas, como se a experiência não fosse suficiente, sempre que pude, tal como a maioria das pessoas que passam pelo arquipélago, lá ia eu parar à praia, de dia, com um sol estrondoso ou a chover e a trovejar, ou de noite e principalmente em noites de luar. Acompanhada ou sozinha. Poucas situações me transmitiram, alguma vez, igual sensação de paz e de plenitude. Foram momentos magníficos, os que vivi naquelas praias. Mas, a bem dizer da verdade... não nadava muito, ou melhor... nadava mesmo muito pouco porque o “fantasma” tubarão pairou sempre no meu in-sub-consciente. A realidade é que, se ele me aparecesse à frente, eu morreria de susto antes dele ter oportunidade de me atacar. Por isso, evitei conhecê-lo, pelo menos vivo...

A escrita e os artefactos

Para quem gosta de escrever uma caneta é a extensão de si próprio e um caderno o seu reflexo. São objectos especiais e, por isso, tratados ...