segunda-feira, 6 de setembro de 2004

O fim de Smile

Naquela noite, Shine provou a si mesma que Smile não correspondia à imagem que ela criara e que alimentara, durante tanto tempo, sobre ele. E por isso, só por isso, aquela noite foi importante. Sentiu-se mal consigo mesma, por ela e pela confusão de sentimentos que emergiam. Saiu de casa de Smile pela manhã com a plena noção de nunca ter tido vontade de lá entrar. Foi um erro. Mais um. Mas desta vez útil para perceber que ele não passara de uma imagem recriada por ela, pela solidão em que vivia.
Culpou-se mal entrou no elevador e até encontrar o carro. Só queria sair dali, fugir e apagar aquela noite da sua memória. Parecia-lhe um “Reviver o passado num qualquer local, mais imaginário do que real”. Enquanto regressava a casa ia pensando “Mais um excesso, Shine... mais um que te fez chegar onde? Mais uma proximidade do abismo, daquilo que não te é útil e que não queres”. Já amanhecera e o trânsito aumentava de forma inacreditável, ela tinha a cabeça esgotada de tanto pensar sem chegar a justificações razoáveis para aquela noite.
E culpou-se porque teve consciência que Smile fora apenas mais um que entrara no jogo das inconfidências sobre a sua intimidade com ele partilhada. Apenas mais um? Foi um dos mais importantes porque no fundo ela continuava a falar dele como um gajo porreiro, cheio de qualidades.
E ele o que fizera? Com o ar de porreirismo militante abriu o jogo da vida dela, dos segredos sofridos tantas e tantas vezes em silêncio, dos excessos inconsequentes, que tinha necessidade de cometer para sentir que a vida pulsava nela. Falara sobre o que fizeram, as expectativas, o desenrolar e o terminar dos acontecimentos, os jogos de sedução utilizados, as palavras e os gestos utilizados, as caricaturas, as venturas e as desventuras de uma, cinco ou dez noites em conjunto. Algumas coisas que lhe contaram sobre ela... só podiam ter partido dele... Era ironicamente revoltante.
E pior um pouco, foi Smile que aconselhou e recomendou Shine a Blu, com uma sordidez pormenorizada, pensada, estudada, com o objectivo de, em determinada altura, poder ficar livre e tranquilo no romance desinteressante e condenado com Sad Face. Na certeza da sua masculinidade não equacionou a possibilidade de já não estar sequer no campo de atracção de Shine. Ela era afectivamente instável porque a vida a marcara pela ausência e pelo abandono, encontrava refúgios e seguranças aparentes, fundamentadas nos excessos que ia cometendo, que Blu detestava e todos os outros adoravam. Afinal, é socialmente estimulante ver um circo a arder...
E também foi Smile que provocou aquela noite com convites quase forçados para uma dança ao ritmo africano, sussurrando elogios sensuais sobre as suas capacidades de dançarina, o que a excitava, à medida que ele se roçava, a apertava e a envolvia. Sabia que, depois dos excessos cometidos umas horas antes, ela não resistia à sensualidade do abraço e do toque, tentando provar a Shine que ninguém se comparava a ele na arte da sedução. E ela foi-se deixando ir - Que raiva... o que fui eu fazer? Não quero nada dele nem com ele - pensava.
E, pela cabeça de Shine as ligações foram-se estabelecendo nas duas horas e meia de caminho até casa e culpou-se infinitamente por não ter percebido tudo, de forma clara. Não só naquela noite, porque afinal essa tinha sido a que menos a preocupava. Percebeu tudo o que acontecera entre ela, Smile e Blu. O próprio Smile falou-lhe nisso - Sentiste que foi uma aproximação trabalhada, não foi...?
Mais uma vez deixou-se ir, envolvida na emoção do momento, na expressividade dos gestos, no toque das palavras. E a única coisa de que se orgulhou foi ter sido ela a sair, a não querer ficar. Apenas porque aquilo não lhe servia. Smile não era sapato para o seu pé.

A escrita e os artefactos

Para quem gosta de escrever uma caneta é a extensão de si próprio e um caderno o seu reflexo. São objectos especiais e, por isso, tratados ...