domingo, 5 de setembro de 2004

IV. O soldado que marchava com o passo certo – A História

E a vida de Shine lá ia continuando, com altos e baixos, com capacidade de se dar aos outros, porque acreditava nas diferenças, e uma avidez infinita de conhecimento – de pessoas, de paisagens, de experiências, de formas de sentir, suas e dos outros, de culturas e de modos de ser e de estar. Shine ia brilhando como o sol, muitas vezes nublada, outras luminosa e outras ainda com as cores fortes do entardecer.
E sempre que as coisas não corriam como esperava, sobretudo com Blu, que por sua vez se desiludia com ela, a cada desatino, pensava:
- Desde o início das minhas viagens, aqui e a outros pontos de África, dei-me às pessoas, nas conversas e nos encontros sociais. Nos afectos entreguei-me, amei, quis conhecer e fazer amigos, quis apaixonar-me e construir uma vida assente em sentimentos e em relações fortes, em histórias de contos de fada e argumentos de filme. Acreditei na amizade e no amor. E onde cheguei? Onde é que a minha forma de vida me levou? Sempre acreditei que os paraísos só o são quando socialmente temos oportunidades e procuramos concretizá-las e pensei que na minha África - com a qual sonhava, aquela que eu gostava de dizer que era a de todos os encantos e sonhos - seria por fim feliz. Mas afinal, as coisas não me correram sempre bem ou como eu queria. A receptividade que tive para com todos, esperando recebê-la em troca, não foi correspondida e até foi mal compreendida. A vida social revelou-se mais um calabouço, marcado pelo preconceito, do que um mundo de oportunidades. E parece que a história que o Blu me contava, fazendo-me ver que era eu que estava errada, e quanto..., não me sai da cabeça e me matraca a toda a hora os ouvidos.
- Já ouviste a história do soldado que marchava com o passo certo?
- O quê? - dizia-lhe Shine em tom exasperante e angustiado, sentindo a frase, mais uma vez, como uma crítica injusta.
- Não sabes o que é? Nunca te falaram nisso?
E Shine olhava-o com a profundidade do olhar que a caracterizava, respirando fundo, enquanto entretida fazia um pouco de purgueira com a vela amarela que ardia derrentendo-se pelas paredes da garrafa de sumo, que comprara na semana anterior e que reciclara para candelabro. Essa sim, fazia sucesso quando alguém entrava pela porta de sua casa. E pensava – o que virá agora? Mas que mal fiz eu desta vez?
E ele começava a falar, bebericando chá de menta bem apurado, inspirando o aroma e tentando não a magoar ainda mais do que já estava:
- Sabes que os soldados na formatura e na parada têm de marchar todos com o passo certo, em sintonia, de forma compassada. Pois um deles teimava em marchar com o pé esquerdo quando toda a formatura marchava com o pé direito. Quando o chamaram à atenção e o corrigiram, ele respondeu um pouco indignado – mas eu estou a marchar com o passo certo, eles é que estão a marchar ao contrário. Entendes o que quero dizer? A culpa é tua que te dás dessa forma, sempre a pensares que as pessoas estão disponíveis para ti e que o mundo gira à tua volta. Tens de ser mais contida...
- Simmmmm... já percebi... para ti também eu sou o soldado que está errado no passo e todos os outros estão certinhos, mesmo que marchem mal. O que queres que te diga?
- Que tens de repensar a tua forma de ser, como te dás, como conheces
toda a gente, porque estás sempre a desatinar com toda a gente. Não vês que não estás a agir bem? Dás muita confiança...
- Ahhhh... já percebi... mas qual é o mal de gostar de conhecer, de falar, de trocar ideias com as pessoas? Não achas que é mais errado estar sempre a dizer mal de toda a gente, a arranjar intriga, a comentar, a contar histórias? Vês-me a fazer isso? Mas as pessoas que fazem isso, tu gostas delas, não é? E se disserem mal de mim...
- Não tens razão. Tu sabes o que penso. Depois ficas assim, triste... mas quem é diferente és tu, não entendes? Se alguém tem de mudar, és tu!
E Blu abraçava-a, tentando reduzir a infelicidade que ela sentia, mas certo que ela estava errada. Desejava-a, queria-a mais do que devia ou podia, mas preferiria que ela fosse um pouco mais discreta na forma de ser, de se dar aos outros e de despertar as atenções das mulheres, mas sobretudo dos outros homens. Queria-a para si e irritava-se que despertasse desejo noutros homens, sendo o centro das atenções, fossem eles o seu amigo Smile, que continuava a achar-lhe graça e se pudesse aproveitaria uma vez mais... não fossem os ciúmes de Sad Face, nunca se teria afastado dela. Ou fossem outros quaisquer que a olhavam com olhar guloso, cumprimentavam efusivamente, fazendo-a sorrir. Não gostava disso e ela parecia não entender ou não querer fazer caso. Às vezes parecia-lhe que ela fazia de propósito e ficava tão irritado que se decidia a desfazer-se em atenções com as outras, aquelas de quem ela não gostava, e ignorava-a para que ela aprendesse. Ela não aprendia, retomava os excessos por incompreensão e desilusão, o que o irritava mais ainda e a relação deles era movida pelo efeito de bola de neve, agravando situações de insustentabilidade.
Não gostava que a comentassem porque quando o faziam à sua frente, ele não podia deixar de lhes dar razão e isso custava-lhe. Não a conseguia defender, ao contrário, reforçava que Shine tinha atitudes desadequadas para a idade, a posição e o meio, algumas desconfortáveis para ele próprio e com as quais não sabia lidar. E também já não tinha idade para aprender a lidar com elas.
Homem que é homem gosta de uma mulher tranquila, quieta, calma e discreta, bonita qb, mas não excessivamente dada aos outros. E Shine não tinha feitio para ser de ninguém. Era de si própria e não era fácil domá-la. Porque haveria de ser assim?

A escrita e os artefactos

Para quem gosta de escrever uma caneta é a extensão de si próprio e um caderno o seu reflexo. São objectos especiais e, por isso, tratados ...