domingo, 5 de setembro de 2004

III. O soldado que marchava com o passo certo – Ainda Shine

Shine foi um alvo demasiado fácil para a intriga porque agia sem medir o quanto estava a ser avaliada. Nunca se preocupou com isso. O importante era estar bem, pensava ela, desde que não prejudicasse ninguém. E por isso ia falando com todos com uma enorme facilidade. Foi sempre assim desde que pôs os pés pela primeira vez naquela ilha. Ela gostava de conhecer pessoas, saber o que estavam a fazer por lá, conversar alegremente e aprender com as experiências alheias. Não pensava em envolver-se de imediato com os homens que conhecia, e fazia-lhe alguma confusão que fosse a primeira coisa em que todos pensavam quando a conheciam. Isso podia vir a acontecer mas não de forma imediata ou como uma acção reflexa. Não equacionou sequer como possível a hipótese das mulheres se sentirem confrontadas e incomodadas com a sua presença.
Ela tinha uma mente aberta e receptiva às diferenças. Mas ficava possessa quando os homens se insinuavam de forma gratuita, lhe lançavam o isco a ver se ela o apanhava. Era tudo tão evidente que a enervavam só com as conversas da treta, os ditos e os contos, que no início a deixavam boquiaberta pelo non sense, mas que com a continuidade a cansavam. Além do mais conscientemente, ela não tinha a noção da atracção que lhes provocava, não só fisicamente mas também pela maneira de ser tão diferente. Só o veio a perceber muito mais tarde e nem vontade teve de retirar algum proveito desse encantamento. Mas muito mais possessa ficava quando as mulheres, por despeito, inveja e irritação, a comentavam, criando e difundindo intrigas à sua volta, inventando situações.
- Flexibilidade mas não tanto, pensava ela, afinal que mal fiz eu a esta gente, que se faz tão amiga e de repente muda do dia para a noite, deixando até de me falar?
E sofria com isso porque começavam a tornar-se profundamente desconfortáveis os sorrisos e os olhares maliciosos, revelando conversas infinitas e imparáveis, sem ser à sua frente e sem que tivesse a possibilidade de se defender. Mas ela acabava por saber – soube sempre o que se disse sobre ela e com que intensidade porque, sendo uma das pessoas mais populares da ilha, havia sempre uma “alma caridosa” que lhe contava, como se fosse amiga, passando-se de seguida para o outro lado e relatando às línguas viperinas a estupefacção patente nos olhos verdes abertos que se enchiam de lágrimas. As reacções de Shine eram uma delícia para as conversas de café que ocupavam uma parte do dia da elite estrangeira da terra de todos os encantos. E passava-se, é certo, mas como poderia não se sentir humilhada, desesperada, sózinha num contexto social tão negro? Lá vinha mais uma sessão de desatinos e de mau comportamento que tanto irritavam Blu.
Shine estava ali para conhecer, aprender e ter uma experiência de vida única. Será que ninguém entendia isso? O envolvimento com Smile acabou por ser precisamente isso: o que nunca se deve fazer com um homem, sobretudo quando ele é giro, divertido, interessante e objecto dos interesses femininos da terra. Há que dizer que na terra os homens interessantes escasseavam e os giros eram quase exemplares em vias de extinção, por isso os interesses recaíam sempre nos mesmos. Depois veio Blu, que não sendo giro, esbelto ou que se pudesse considerar um gajo bom, era muito divertido, atencioso, terno e encerrava qualquer coisa de misterioso e de muito envolvente. Quando as comparações entre Smile e Blu surgiram, feitas por línguas malévolas, Shine entrou quase em delírio.
- Mas será que uma pessoa tem sempre de viver marcada por uma história ou uma relação? dizia em tom angustiado, sempre que, nas discussões com Blu, lhe era referida a suposta paixão recalcada, sobre a qual toda a ilha falava. É verdade que Smile é um gajo muito porreiro e eu gosto dele, é divertido e alinha sempre em borgas, é uma boa companhia mas isso não faz dele o homem dos meus sonhos. Afinal estou contigo porquê? Achas que não gosto de ti? Também tu acreditas nisso?
E a discussão ia num crescendo de emoções que se transformavam rapidamente, deixando-a possessa e com vontade de desatinar com aquelas menininhas que não desistiam de lhe tornar a vida num inferno. Shine gostava de Blu, e estava disposta a mudar muita coisa na vida dela por ele. Talvez ele tivesse mais dificuldades em transformar a sua vida por ela e refugiava-se em acusações seguidas de desencontros, como forma de justificar as suas próprias angústias.
Blu era um homem naturalmente terno e carinhoso, amigo e presente, preocupado com ela e interessado no seguimento do seu trabalho, que passava por fases boas e más, em função da disponibilidade emocional e psicológica de Shine. E isso sabia-lhe muito bem, apesar dela ter consciência que aquela seria mais uma relação temporária e que as coisas iriam ficar por ali. Mas enquanto durasse ela queria viver feliz com ele.
Shine chamava-lhe Blu porque quando ela estava triste ele tocava-lhe na ponta do nariz, acarinhava-a e dizia-lhe, a pedir um sorriso, faz um blu para mim. E Blu ficou. Apesar das imensas qualidades que ela conseguia perceber, Blu era como a maioria dos homens – mulherengo, infiel, sedutor a tempo inteiro e em exclusividade. Não que isso alterasse em nada os sentimentos dele. Era com ela que ele queria estar e partilhar o espaço da sua casa, o tempo livre e todo o outro, dividir a sua cama e os afectos, as preocupações, as angústias e as alegrias, mas as outras mulheres atraiam-no, sobretudo quando percebia que lhes despertava atenção e interesse. Não lhe interessava se eram atenções reais ou marcadas pela falsidade e
ela não suportava a ideia de se sentir posta em causa, nem que fosse por um segundo, por aquele bando de abutres, “jagudis” imparáveis que atacavam mal a viam com alguém.
Naquela terra de ninguém, as conquistas dela funcionavam como isco para as outras. Um homem podia viver por lá há muito sem despertar qualquer interesse, mas se a viam com ele, passava a ser o objecto de desejo predilecto de todas. Shine não chegou a perceber se o faziam só para a chatear ou qual era a razão pela qual os homens que a atraíam passavam de desinteressantes a irresistíveis.

A escrita e os artefactos

Para quem gosta de escrever uma caneta é a extensão de si próprio e um caderno o seu reflexo. São objectos especiais e, por isso, tratados ...