sexta-feira, 3 de setembro de 2004

II. O soldado que marchava com o passo certo – Shine, Blu e Smile

Os dias marcados pelos desatinos de Shine sucediam-se, cada vez com maior frequência, e apesar das tentativas imparáveis de se acertar com Blu. Ela estava verdadeiramente apaixonada por ele, mas o “bom malandro” que vivia dentro dele estava também, de dia para dia, mais activo, e isso confundia-a. Afinal, se a queria tanto quanto dizia, porquê estas atitudes e reacções?
O trabalho que tinha que fazer por lá era “por conta própria”, não dependia de superiores e não tinha horários a cumprir. Ia fazendo, ao ritmo dela e dava-se ao luxo de estar semanas sem trabalhar porque tinha a habilidade suficiente de compensar nas semanas seguintes. Isso dava-lhe a possibilidade de gerir o tempo – passava dias na praia ou a desenvolver actividades de lazer que incluía no seu trabalho. Tudo naquela estadia tinha potencial para correr bem.
Antes de Blu, Shine apaixonara-se por Smile, o protótipo do sedutor por conta própria e por prazer. Smile era o que uma mulher pode considerar de “gajo bom” – giro, simpático, bem parecido e malandrão, óptimo conversador e disponível para excessos e momentos bem passados. Foi o que aconteceu, entre Shine e Smile – uns momentos bem passados que ela procurou prolongar mas que não tinham conteúdo para serem continuados.
Apesar de ser um “gajo bom”, não tinha grande reputação por lá – metia-se com tudo o que era mulher e não era preciso ser grande espingarda. Mas quando Shine o conheceu, após uma série de coincidências – faziam parte do mesmo grupo de discussão na net e encontraram-se, sem imaginarem quem eram, mal ela chegou ao país – a atracção foi instantânea.
Ela estava mais do que precisada de uma emoção forte e arrebatadora e ele já via as mulheres locais com uma conjugação impossível - louras, giras, divertidas e inteligentes, independentemente dos traços fisionómicos, tal era a aridez do mundo feminino. Smile pareceu-lhe caído do céu, sempre divertido e com vontade de uma boa risada. Uma garrafa de vinho ou uma cerveja, intercalada com mais qualquer coisa, faziam maravilhas para uma noite de conversa, que terminava sempre na praia, num banho longo a ver o nascer do sol. Shine era para Smile uma presença agradável e sobretudo uma cara nova, com interesses diferentes do da maioria das garotas que ali iam parar. Estavam um com o outro na maior das sintonias, desde que não houvesse compromissos.
Mas na vida de Smile havia uma Sad Face, sem que Shine tivesse percebido. E os problemas começaram a aparecer porque Shine intrometeu-se, sem querer ou imaginar, entre Smile e Sad Face e, além da relação que foi emergindo aos olhos de todos, Shine deixou-se apaixonar. Como o meio facilitava a intriga, todos souberam, comentaram e aumentaram aquele sentimento que estava contextualizado no tempo e no espaço. Entre essa altura e o dia em que Shine conheceu Blu passou um ano e até se ter apaixonado, e envolvido afectivamente com ele, muito mais tempo. Quando regressou, os sentimentos que nutrira por Smile já não existiam sequer. Ela passou a falar nele como um gajo porreiro, porque o era de facto. Continuava divertido mas nada mais do que isso. Já nem graça lhe achava.
Estava então disponível para novos afectos e emoções, não contando que, durante o tempo que se afastara daquela gente, a intriga continuara num crescendo alucinante e imparável. Conheceu Blu e até hoje, depois de muito pensar, não consegue dizer se a aproximação que ele fez foi combinada com Smile e Sad Face, como forma de a manter à distância suficiente, sem causar transtornos perante os ciúmes intensificados, mas infundados, da garota. Sad Face era insegura e Smile não lhe dava razões para ser de outra forma.
Quando a ideia lhe passava pela mente, ficava arrepiada de tanta irritação. Não querendo acreditar, pensava – Xô pensamentos negativos, tenho de me sentar ao sol a fazer Ioga para receber energias positivas. E lá ia para a pequena varanda do apartamento, umas vezes com uma vela acesa junto a si e outras concentrando-se na energia do sol, cruzava as pernas e tentava meditar, emitindo o som Ommmm.
Claro que essa prática não ajudou a refazer a imagem que todos tinham dela, mas ela não parecia particularmente preocupada com isso. Afinal, não devia nada a ninguém e não estava a prejudicar nenhum deles. Estava a fazer a vidinha dela, calma e tranquilamente, a encontrar-se e a tentar perceber ao certo o que queria. Ninguém tinha nada que ver com a vida dela e não havia demonstrações de amizade, sobretudo nas mulheres. Invejosas, pensava.
Além dos desatinos, dos excessos que cometia quando estava triste, também fazia Ioga na varanda, e até os jardineiros comentavam que a Dra. tinha uma religião esquisita, qual seria? Ela ria-se quando lhe vinham contar... afinal não era ela senhora de fazer mesmo o que lhe apetecia? Até o Ioga seria um excesso? Ou um sinal de se ser uma pessoa desestruturada, como lhe diziam, quando percebiam que não era casada, não tivera filhos, porque a vida assim não o quis, e fazia o que lhe apetecia mas não tinha namorados. Relações só lhe conheciam a de Smile, porque Blu ainda não fazia parte dos sonhos dela. Apareceu mais tarde, e foi um problema num dia só...
As mulheres odiavam-na, com uma ou outra excepção, porque ela tinha uma forma de estar singular, marcando pela diferença.
Os homens achavam-lhe graça, brincavam com ela, por tudo e por nada, tentavam meter-se, a ver se dava, e a resposta era conhecida e desencadeadora de risos, de sorrisos ou de olhares reprovadores em função das caras – Xê... Oh... tem juízo, tu não prestas! Arranjaram-lhe alcunhas e até lhe chamavam frígida, o que a enervava e desencadeava desatinos... porque ela dizia não gostar de dançar e não querer ter relações de uma noite, como todas as outras, ora com um ora com outro. Gostar... ela gostava mas não era com toda a gente, quem escolhia era ela. Na verdade, ela sabia muito melhor o que queria do que as outras e isso era visto como um problema.
Shine era das pessoas mais populares, conhecia toda a gente, o que não era tarefa difícil – as pessoas não eram muitas e ela era simpática, sorridente quando estava bem disposta, disponível com todos, desde que não a pisassem e não lhe fizessem mal. E mesmo nestes casos, dava, quase sempre, o benefício da dúvida, o que a fazia sofrer porque na sequência, quem não lhe queria bem, pisava de novo. Era uma referência, pediam-lhe informações e sugestões, chegavam lá dizendo que eram amigos dela e, de quando em vez, confrontavam-se com a própria, dizendo-lhe que eram seus amigos, mas quando se davam conta de quem ela era... constrangiam-se. Ela sorria, ria-se e começava logo a tratá-los por tu.

A escrita e os artefactos

Para quem gosta de escrever uma caneta é a extensão de si próprio e um caderno o seu reflexo. São objectos especiais e, por isso, tratados ...