sexta-feira, 3 de setembro de 2004

I. O soldado que marchava com o passo certo - prelúdio

Invariavelmente, Blu contava-lhe uma história sempre que lhe queria dar na cabeça, nos dias após ela ter feito uma asneira. E a asneira era para ele “portar-se mal”. Já passara a fase dos 30 há algum tempo, mas, nestes dias, ele agia como se ela tivesse apenas três.
Em boa verdade, fazia o que tantos fizeram, antes, durante e depois dela, mas ele não gostava de a ver assim. Bebia uns copos a mais e fumava umas joints com quem as tinha. Não com ele, que era contra excessos e adicções. E fazia-o sempre demais, porque não sabia parar e deixava-se ir na embalagem. Isto acontecia esporadicamente e sempre que estava chateada com ele. Era um refúgio, um porto, uma evasão, o esconderijo onde ninguém entrava porque não a encontravam. Ela estava ali mas era como se não estivesse, ausentava-se do que a incomodava e por isso sorria, a pensar -“Estes gajos não prestam para nada. Não têm o que fazer e, ou estão no engate ou a dizer mal de alguém”. Era no fundo o seu pequeno mundo onde flutuava acima das ondas, levada pelo vento. E sabia-lhe bem. Sobretudo por não ser dada a ressacas.
Ficava louca de riso e de desejo por ele, mas se lhe diziam alguma coisa que ela não gostava... o caldo entornava e a baiana dançava. E parecia que escolhiam os dias em que estava com um sorriso de idiota estampado nos lábios, um olhar vago e um passo dançarino para a virem chatear. E depois, era tudo tão previsível... diziam-lhe coisas mesquinhas, contavam pormenores sórdidos acerca da vida dele, comparavam-no ao outro que tanta paixão lhe tinha despertado um ano antes, mas para o qual ela já não tinha olhos porque se tinha revelado um estafermo.
Era um gajo porreiro, como ela estava sempre a dizer, mas apenas isso. Já não tinha graça porque já tinha passado o prazo de validade dele. Era engraçado porque o "estafermo" lhe dizia nos tempos aureos que as mulheres vêm normalmente sem prazo de validade e cartão de garantia, por isso era tão difícil o relacionamento com elas - não se podiam devolver ao produtor. Só que pensando bem, ele é que ficou fora do prazo quando Shine conheceu Blu.
Na verdade, Blu não viria a ser muito diferente mas Shine queria acreditar que sim, que o tinha eleito por ser diferente. Afinal eles eram amigos e talvez tivessem muitos pontos em comum - o facto de não prestarem, de serem uns incorrigíveis sedutores e uns "bons malandros", mas sobretudo por se terem interessado por ela e ela por eles, mas em momentos diferentes.
Já não havia paciência e como ela gostava de lhes dizer, consciente de que os chocava – “Não há cu que aguente esta conversa. Olha, desemerda-te e deixa-te disso” – virava costas e deixava-os a falar sózinhos, enquanto dizia a Blu – “Tou farta destes gajos. Vou-me embora. Tu se quiseres fica”.
Ele não gostava de a ver assim, nem de a ouvir a dizer isso porque era um homem certo, composto e muito respeitado. Umas vezes vinha com ela, iam para casa e ele recusava-se a fazer amor com ela assim – “Não estás em condições. Vai dormir! Falamos amanhã” – dizia-lhe, enfurecendo-a de morte.
Achava-se injustiçada e meia perdida, e quando isto acontecia tinha de andar pela cidade a pé, fossem 10 horas da noite ou quatro da manhã. Tinha de andar, senão sufocava naquele calor húmido a apelar aos sentidos, rejeitada e a sentir-se sózinha. E lá ia avenida fora até à marginal, ver o mar e ouvi-lo, para sentir que o mau momento era lavado pelas ondas. Ele ficava fulo, não suportava vê-la sair e perceber que, no dia seguinte, metade da ilha comentaria que ela estava de tal forma que andava pela cidade, muitas vezes a chorar e sem ver ninguém, depois de ter desatinado num lugar público. Até haver alguém que parava, para a ir buscar às escadas da Catedral onde estava sentada sózinha, de frente para a baía a chorar em silêncio.
Mas nas outras vezes em que ele achava que ela tinha ultrapassado o limite do possível, ou quando uma outra de quem ela não gostava, e que não gostava dela, chegava ao bar, ele decidia ficar e dizia-lhe, sabendo o transtorno que lhe causava “OK, vai andando para casa que eu ainda fico um bocado”. Sabia os ciúmes que lhe causava e ela, só lhe apetecia partir tudo. Mas em vez disso, saía e procurava quem tivesse umas folhinhas e as quisesse partilhar num final de noite, para uma troca de confidências, algumas lágrimas de incompreensão e solidão, e nada mais, apesar dele ficar sempre na dúvida. Ela sentia-se trocada. E havia de ser logo por aquelazinhas que não valiam um chavo. Mas ele também não, pensava ela, e sentia-se um pouco mais confortada.

A escrita e os artefactos

Para quem gosta de escrever uma caneta é a extensão de si próprio e um caderno o seu reflexo. São objectos especiais e, por isso, tratados ...