domingo, 29 de agosto de 2004

O Tempo em África

Enquanto lá estamos, temos a sensação que o tempo tende a parar – é quase um fait divers, mas eu senti-o, não foi ninguém que me contou. E apesar de tudo, hoje, que já lá não estou, mas tenho esperança de voltar logo que possa, parece-me que o tempo, que por lá passei, voou.
Os sentidos quedam-se na contemplação, porque tudo é um estímulo, quente, terno, doce, acolhedor e envolvente. A humidade colante reflecte-se nos corpos despidos e nas peles tórridas. O vento procura arrefecer o ambiente, “parece que vai chover... pode ser que alivie” – alguém diz, numa estranha combinação de conforto e de afrontamento e continua com um tom conhecedor e conformado, perante o desconforto dos novatos – “Faz parte, é o clima...”. E tudo a partir desta frase é explicado pelo clima. Boa justificação para qualquer manifestação dos sentidos, da mais pura à mais... extravagante.
As chuvas africanas, caracteristicamente tropicais – intensas e fugazes, como quase tudo o que se vive por lá – dão-nos a estranha sensação de quanto tudo pode ser contraditório, contrastante e temporário. Jà me tinham falado disto e já o sentira, mas noutros contextos, noutras Áfricas tão diferentes desta, e por outras razões. Mais dramáticas, confesso.
A verdade é que, nada permanece, apesar da mudança nos parecer sempre tão lenta. O tempo não passa... às vezes custa a passar... e nos dias maus então... sentimos o “leve-leve”, de forma pesada, e agravada pela dureza do clima. “A vida aqui não é fácil. Não há condições...”, acabo por constatar, com a sensação que o meu mundo não é aqui, que não pertenço a esta terra, mas que também não me sinto bem no sítio de onde vim. É estranho e contraditório. Sinto-me desenquadrada e preciso que me ajudem. Peço mas... todos parecem sorrir com o meu desacerto. Sinto a vida num rompante, a passar passando, devagar devagarinho.
À minha frente, no Passante – local de grande inspiração para a escrita – o mar verde, azul, cinzento, em função do tempo e dos estados de alma de quem o vê, denso e intenso, permanente na passagem, num ir e vir constante e renovado. Talvez por isso goste tanto deste sítio. O mar é como os meus olhos, muda de cor mas a intensidade permanece.
Esta é a melhor imagem que, algum dia, consegui ter, do ser, do estar e do ficar, saindo e passando.
STP, Dezembro 2001

A escrita e os artefactos

Para quem gosta de escrever uma caneta é a extensão de si próprio e um caderno o seu reflexo. São objectos especiais e, por isso, tratados ...