segunda-feira, 30 de agosto de 2004

À Noite no Passante

O Passante permanece placidamente sereno e tropical, enquanto como uma tosta mista e bebo uma coca cola, fugindo às recomendações, de que fosse sem gelo e sem limão. Mas com este calor uma coca cola sem gelo e limão saberia simplesmente a água choca açucarada, por isso que seja o que Deus quiser.
A minha frugal refeição é alegrada pela música que se vai fazendo ouvir, crioula e bem ritmada, misturando-se com o som das ondas a bater no paredão ao rebentarem.
“Yoyoyoyoyoyoyo... yoyoyááááááááá” vai-se ouvindo, intercalado por batidas quentes e apelativas, convidando para um kizomba bem colado. Mas àquela hora – do mosquito – não há pares que queiram dançar e mesmo que os houvesse, eu não dançaria. Não por não gostar mas... sei lá eu... A minha fraca experiência de vida diz-me para ser cautelosa nas escolhas e nas danças. Há quem diga que a dança é uma frustração sexual - uma tentativa de sexo com quem nunca se terá. E as danças africanas são exímias. Por isso... mesmo que me aparecesse à frente o maior dançarino do Mundo a ensinar passos novos, o sedutor mais irresistível com uma conversa desconhecida ou o amante mais prodigioso a propor-me o que mais me agrada... naquela altura, eu resistiria. Não por falta de vontade mas por medo de voltar a viver tudo outra vez. Tudo o que não foi bom...
As músicas que vou ouvindo falam da saudade sentida pelos amantes, apelando ao retorno, tal como as ondas, levando e trazendo água nova misturada com a velha, limpa e suja, sem que seja possível distingui-las, criando um mesclado de sentimentos e de colorações.
E eu... penso em ti, na forma como me entreguei, sem que o merecesses, sem que tivesses a capacidade de apreciar; na incompletude do que senti, nas emoções que ficaram por realizar; numa África tão diferente desta que se me apresenta ligeirinha, suave e adocicada, aquela que eu queria e não esta onde vim parar, por vontade própria, por medo de voltar à outra, onde tu estavas, e de te reencontrar. Vens-me ao pensamento a toda a hora. Que é de ti?
E eu, que nem gosto de coca cola, dou comigo a pensar no quanto esta bebida me soube bem – fresca e borbulhante – permitindo-me novas sensações, fazendo-me pensar na possibiliadde de renovação. Afinal já lá vai tanto tempo... e eu continuei presa a uma imagem, que já não sei mais se é real ou fictícia, mas tão negativa, que me fez tanto mal... E porquê???

Sabes o que te diria se te visse? Que venha o futuro, um futuro diferente do presente e do passado, pelo qual eu tanto anseio e que me dou ao luxo de pensar que mereço. Que me permita renascer numa nova África, esquecendo a antiga...
Na minha primeira viagem a São Tomé, 2000

A escrita e os artefactos

Para quem gosta de escrever uma caneta é a extensão de si próprio e um caderno o seu reflexo. São objectos especiais e, por isso, tratados ...