sexta-feira, 27 de agosto de 2004

Moça dos olhos tristes

- Moça dos olhos tristes e profundos, encantaste-me e seduziste-me só com o teu olhar. Um olhar: contido, terno e doce, a oferecer-me infinitos mundos que eu quero descobrir; reservado e indiciador de sofrimentos, que nunca conseguiste ultrapassar e sobre os quais tens tanto receio em falar; tão sedutor que consigo ver a amante fogoza que és por trás da tua timidez.
- Porque me chamas moça, quando tenho nome? Diz o meu nome ou nem o sabes sequer? Tens medo de te enganar...?
- Que mágoas passadas, presentes e futuras esconde esse tom indefinido. Que mistérios têm a revelar o verde distante, o cinzento tristonho e o meigo acastanhado? Porque mudam de cor os teus olhos que me seduzem por serem tão diferentes mas tão belos? Porque és tão insegura de ti, se és tão doce e tens uns olhos para os quais tenho até medo de olhar, porque me posso afundar neles e não voltar a aprender a nadar?
- Porque... olha, por não me tratares pelo nome e me continuares a chamar moça, como a uma outra qualquer que passou pela tua vida antes de mim ou que venha a seguir. Porque são tantas que não sabes o nome de nenhuma, mas isso também nem é importante. Não é mais possível acreditar no que me dizes. Porque também eu tenho medo de me perder, nas tuas palavras doces e no teu toque macio, nos teus braços fortes quando me abraças e na tua envolvência, e não me conseguir encontrar. Porque não posso e porque não quero. Porque o sofrimento que vem será com certeza maior do que o imenso prazer que me dás.
- Mas o que é mais importante? Ser fiel ou ser leal? Já pensaste que fiéis são os cães? Os homens são leais. A si, a sentimentos, a valores e aos outros. A vida é uma aprendizagem feita de momentos e a inteligência está em vivê-los bem, na busca da felicidade.
-
Sim, eu tenho um cão e gosto de pensar que um homem tem mais qualidades do que o meu cão, que é, como dizes, apenas fiel. O homem com quem eu quero estar tem de ser leal e fiel. Aos sentimentos que tem por mim".
- "Não olhes para mim com esses olhos...

- Porquê? O que têm os meus olhos?
- Tu sabes... não lhes resito.

E assim ficaram, olhos nos olhos, dentro da água morna dos trópicos, e com a intensidade do pôr do sol ao longe, no horizonte, pensando ele no que fazer para continuar a seduzi-la e ela na tristeza que se avizinhava após a deliciosa sedução.

Agosto 2004

A escrita e os artefactos

Para quem gosta de escrever uma caneta é a extensão de si próprio e um caderno o seu reflexo. São objectos especiais e, por isso, tratados ...